Sobre cotovias e lobos


Aos cinco anos minha vida era povoada
de histórias que meu pai Mário nos contava à noite. Elas falavam de reinos
distantes, terras longínquas numa Europa desconhecida, de povoados cobertos de
neve com lobos que uivavam à noite e cotovias que cantavam ao amanhecer. Outros
mundos, outros povos, entravam pela janela nas noites frias de inverno e
enchiam nossa casa de vida, enquanto nos enrolávamos nas mantas em nossas
camas. Entre jornais, livros e histórias, a minha alfabetização se deu
rapidamente e ao entrar na escola eu já conhecia as letras. Então vieram as
revistas em quadrinhos que chamávamos de gibis, me pai as comprava regularmente
para mim e minhas irmãs e o meu mundo se encheu da alegria e ingenuidade do Cebolinha
e da Mônica e da magia de Walt Disney: Tio Patinhas, Donald, Margarida e Mickey eram meus companheiros inseparáveis. Eles
estimulavam a minha imaginação e me despertavam para outras leituras que viriam
a seguir. Aos nove anos comecei a frequentar a biblioteca da cidade e conheci o
mago Monteiro Lobato que me pegou pela mão, me levou ao sítio encantado de dona
Benta, me apresentou Emília, Pedrinho e
Narizinho. Minha casa não tinha luxo, mas era povoada de sonhos que a leitura
me trazia e era comum eu passar horas escondida debaixo de um pé de limão, no
fundo do quintal, perdida no reino das águas claras...
À medida que fui amadurecendo, a escola
também foi fazendo o seu papel, me apresentou outros autores, veio a série Vagalume
com suas aventuras saborosas e a sensibilidade explícita de José Mauro de
Vasconcelos...
